Metodologia dos Exercícios,

como eu a entendo e a vivo.

por Pe. Paulo Lisboa, sj

  1. INTRODUÇÃO

Neste momento de vida em que tenho um pouco mais de tempo para a reflexão e a leitura, resolvi também tirar momentos para escrever sobre a espiritualidade inaciana. A primeira redação teria que ser em torno daquilo que me fez mais jesuíta, ou seja, a experiência e vivência dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EE). E o faço, tendo presente pessoas que me ajudaram a vivê-los nas etapas da vida como jesuíta, algumas como “guias”, outras muitas como “discípulos”. A umas e outras dedico estas linhas a seguir, qual legado espiritual de muita gratidão.

É bom que nesta breve introdução seja colocado em síntese, o fio condutor desta exposição, que segue a temática intitulada acima, sobre os EE. Pensando no modo mais prático de apresentá-la eu me propus ter em vista os amantes dos EE, em especial aqueles e aquelas que, de uma maneira ou de outra, exercem já o ministério de apresentá-los aos nossos fiéis cristãos.

Sem pretensão de exatidão científica, mas na simplicidade de lembranças, eu trabalho nas páginas seguintes, oito indicações metodológicas importantes para que a experiência dos EE se realizem de fato.

É com muito carinho para com este instrumento maravilhoso da Graça Divina, que eu ofereço e reparto com os irmãos e irmãs que lerão, aquilo que eu procurei acolher para meu proveito espiritual pessoal e de centenas de outras pessoas, na busca do essencial, o REINO de DEUS já presente e ainda por vir.

  1. DESENVOLVIMENTO DESCRITIVO

Mais do que desenvolver teoricamente um tema, preferi neste trabalho apresentar o método contido nos EE, a partir das muitas experiências pessoais trabalhadas e revisadas nos quase 50 anos passados, desde o primeiro ano (1968) após a minha ordenação como sacerdote jesuíta.

Por isso mesmo, essa metodologia será apresentada a título de “indicações”, a partir de uma prática. Serão oito indicações, como já foi falado, que no meu modo de ver compõem melhor o conjunto ao término da leitura, desde que lidas sequencialmente. Esta a intenção de ir colocando e ordenando cada uma delas, uma após outra, sem a preocupação cronológica ou de prioridade. Não quis me estender com demasiada precisão em cada uma delas. Talvez em algumas um pouco mais, por sua importância, enriquecendo o conjunto.

Vejamos então:

  1. Primeira indicação = A expressão do nome

O nome, universalmente conhecido no meio dos Religiosos/as e hoje também no meio laical “Exercícios Espirituais” nem sempre é bem compreendido no seu significado original, dado por Santo Inácio de Loyola, quando os compôs e os legou à Igreja em um pequeno livro, sem pretensões culturais, apenas opúsculo de ajuda espiritual.

Neste meu escrito usarei sempre a sigla EE para o conjunto do livro e das silabas ee (em minúsculo), para os momentos dedicados às diversas orações indicadas por Inácio, para serem feitas ao longo dos dias ou semanas, pelos exercitantes ou pessoas que passam pelos EE. Esse nome é aplicado então à própria experiência no seu todo, seja ela seja a das quatro semanas integrais, seja a de sete ou oito dias corridos e numa Casa própria e adequada. Como para exercícios físicos, hoje tão em moda, estas pessoas se dispõem a praticar de uma forma dinâmica também, exercícios espirituais, claro que, com finalidades distintas. É o que aparece no número 01 dos EE e que contém a ‘1a Anotação’ de Inácio, para quem oferece os EE aos que se apresentam para realizá-los.

Quanto à expressão é importante ainda saber que o livro dos EE contém as instruções do autor do livro, com o nome de ‘Anotações’ ou ‘Regras’ diversas, sempre mais dirigidas aos que conduzem e estão apresentando os EE. Se hoje o opúsculo tornou-se mais público e está até nas livrarias é importante e muito salutar que se saiba que ele não foi originalmente pensado por Inácio para o grande público e nem para que fosse simplesmente lido como um devocionário. A sua leitura solitária, mesmo como devoção e sem um “guia”, que prefere-se hoje chamar de “Acompanhante”. Sem esta pessoa, não se dá a experiência própria dos EE.

  1. Aplicação aos EE anuais e de devoção

Na certa, já deu para perceber que estes EE que chamei de “anuais” seja por necessidades variadas, seja por devoção pessoal e não poucas vezes até para cumprir o ‘preceito’ (religiosos e religiosas) apenas são adaptações aos EE que eu costumo chamar ‘completos’ e que foram sempre os originais, pensados e recomendados pelo seu autor. É por isso que se guarda o nome original deles, para distingui-los de outros modos de ‘Encontros’, ‘Retiros’ ou ‘Dias de oração” ditos ‘espirituais’, que nem sempre são realizados na solidão e numa boa concentração silenciosa. Parece-me que isto deveria estar bem mais compreendido até pelo Clero, quando se pensa e se programa os dias de um pouco mais de espiritualidade. O mínimo que se deveria pedir para aqueles que programam esses dias é que haja um pouco de solidão e concentração silenciosa, para se escutar a PALAVRA de DEUS. Não se pode misturar um pouco de tudo e se falar em EE!

Adaptação também no que diz respeito à pessoa que propõe a ‘matéria’ dos ee . Esta, como ela é apenas uma mediação do Espírito Santo e que oferece o material para esses ee, escolherá aquele que julga ser o mais adaptado a cada dia, ou, nos EE completos, a cada semana. É por isso que eu penso que os EE de seis, sete ou oito dias, hoje muito comumente dirigidos a grupos, não têm e eu ainda diria, e não devem mesmo ter, a mesma forma ou linha de apresentar a matéria para cada dia. E é por essa razão que até mesmo nós, os jesuítas mais especializados no assunto, não somos iguais no dar a matéria para os dias desses EE reduzidos. O conteúdo deveria ser bem semelhante, embora a forma possa ser diferente. Eu mesmo, quando deixei de dar os EE completos (de mês), nos quais eu procurava ser mais rígido nas orientações segundo o original do que são os EE segundo Inácio de Loyola, tenho apresentado os EE de oito dias utilizando bastante o método que dá o arcabouço a EE mais inacianos, sem as muitas prescrições do tempo mais longo deles.

  1. Requisitos fundamentais: desejar e se dispor

Para que uma pessoa possa realizar com seriedade e então com êxito a experiência dos EE, supõe-se que o pretendente saiba desejá-la e que se disponha a uma verdadeira conversão de vida mais cristã. Precisando melhor:

  • Desejar

Inácio em todos os seus escritos, e em especial no livro dos EE é muito claro em valorizar os bons desejos. Para ele são até uma condição de aceitação para quem aceita fazê-los. Inácio aplica o mesmo princípio para a aceitação de candidatos à Companhia de Jesus. Aliás, esse real discernimento deveria ser aplicado para todas as decisões mais importantes que a pessoa realiza na sua vida cristã.

Para frisar mais esta necessita é bom lembrar que o santo, na sua primeira grande reflexão que fundamenta toda a experiência de seus EE, apresenta o que ele chama de “Princípio e Fundamento” (EE,23). Aí também já está testando a pessoa que inicia a caminhada, sobre a qualidade de seu desejo. Assim conclui: “Por isso (a busca do fim pelo qual Deus nos criou) é necessário fazer-nos indiferentes (livres internamente) a todas as coisas criadas […] de tal maneira que não queiramos (desejemos) antes saúde que enfermidade […] e em tudo mais desejando e escolhendo o que mais nos conduz ao fim para que somos criados” (EE,23). Essa atitude interna que se manifestará na fidelidade e regularidade da busca diária, será um desafio constante nos variados ee que serão propostos.

  • Dispor-se

Trazendo esses bons e altos desejos consigo, o exercitante sente que o seu ‘eu profundo’ se coloca mais aberto e disponível e será bem mais receptível à ação do Espírito Santo, que é O Santificador. O exercitante então entra na experiência sem receios pelo que poderá   acontecer.

Também neste particular o autor do livro dos EE aponta “àquele que dá os EE” , para um cuidado que deve ser observado ao longo dos dias. Trata-se de que à medida que caminha junto dele, vá percebendo se continua crescendo na disposição inicial. Para o início as palavras já haviam sido bem claras: “Muito aproveita a quem faz os EE, entrar neles com grande ânimo e liberalidade (generosidade) para que a Divina Majestade, conforme sua vontade santíssima, se sirva de sua pessoa e de tudo o que possui“. 5a Anotação (EE,5).

Ajuda também muito que essa pessoa verifique qual está sendo o nível qualitativo de sua disposição, em vista de futuras melhoras. Isso, especialmente para os dias ou momentos, em que a oração pessoal pareça enfadonha e fastidiosa. Seria então muito oportuno servir-se do que o experiente Inácio fala, usando mais as expressões e termos “CONSOLAÇÃO e DESOLAÇÃO”:

“[…] ASSIM COMO NO TEMPO DA CONSOLAÇÃO É FÁCIL E LEVE ESTAR EM CONTEMPLAÇÃO DURANTE HORA INTEIRA, DO MESMO MODO É MUITO DIFÍCIL COMPLETÁ-LA NO TEMPO DA DESOLAÇÃO. POR ISSO […] DEVE SEMPRE O EXERCITANTE PERMANECER NA CONTEMPLAÇÃO ALGUM TEMPO ALÉM DA HORA COMPLETA…“. (EE 13).

  1. Supremacia da GRAÇA PRÓPRIA do ESPÍRITO SANTO

Este tópico, que deve estar presente como uma convicção ao longo do processo é, a meu ver, aquilo que caracteriza a marca de um “Retiro inaciano” (expressão muito usada, mas não muito própria). Os outros tipos de Retiros, repletos de palestras teóricas, mesmo que teológicas, com uma quantidade às vezes de dinâmicas grupais e sem os tempos para a oração pessoal de escuta, não podem ser comparados com os EE. Nestes a presença da Graça do Espírito Santo é prioritária. Aqui, todas as demais mediações da técnica moderna até as mais sofisticadas, se bem usadas são relativizadas, sem nunca serem as determinantes do bom resultado e fruto dos EE.

Para fundamentar o que está dito acima, é bom apresentar a experiência de quem legou os EE à nossa Igreja de todos tempos. Na longa estadia de oração em Manresa, o ainda cavaleiro de Loyola experimentou essa supremacia gratificante, ao perceber que não sentia paz interior em alguns momentos de oração em que deixou de se entregar à graça. Por isso, quando terminou a sua experiência de meses de oração em Manresa, sentia-se preparado para ‘ayudar’ (ajudar) a outros em conversas espirituais. Pouco a pouco irá montando o livro dos EE, a partir destas conversas.

Isso tudo é guardado em notas, que farão parte depois do ideário do livro dos EE. Neles ele chega a colocar como condição básica para o ‘proveito espiritual’ a invocação ao Espírito Santo, mesmo se esta Terceira Pessoa não seja mencionada explicitamente, repetida antes de iniciar cada exercício. As variadas expressões sempre com a mesma consistência da graça, aparecem desde o primeiro exercício como “segundo preâmbulo”. Na sua linguagem: “O segundo (preâmbulo) é pedir a Deus Nosso Senhor o que quero e desejo (lembrar os ‘requisitos’)… EE,48; “pedir a graça que quero” – início da segunda semana – EE,91, etc… Fica claro então que a graça corresponde ao objetivo de cada semana ou nos EE menores, a cada etapa.

Insistindo ainda neste aspecto, trago a voz autorizada de um dos bons especialistas dos EE, o Pe. Gèza K. Em nota de rodapé, na sua tradução para o português do texto “Autógrafo” dos EE, ele assim se expressa: “O querer humano está radicado em Deus, orientado essencialmente à passividade humana: significa que – na ordem da graça – Deus dá não só o poder agir, mas também o próprio querer (Fl 2,13). O único que o homem tem de ativo é a sua receptividade”, Exercícios Espirituais, 1a ed., São Leopoldo (1966), pág. 46, nota 3. Relaciono a nota à ação de Deus que se dá, dependendo sempre da nossa abertura a ela.

  1. As duas faces da oração inaciana – meditação e contemplação

Sem entrar em detalhes e pormenores de especialistas que se encontram em tantos escritos de Teologia Espiritual, apresentarei o que eu julgo como principal para a prática dos e nos EE, ou em “Retiros” de mais oração, manhãs e dias de oração, tríduos etc …

  • A meditação

Se fizermos uma pesquisa, veremos que no livro dos EE são poucas as vezes em que a meditação é indicada explicitamente. Em uma dezena de ocasiões ela vem registrada e explicada metodologicamente, como por exemplo, logo no início da Primeira Semana: “O primeiro exercício é meditação, com as três potências (memória, inteligência e vontade) sobre o primeiro, segundo e terceiro Pecado … (EE,45).

Já se percebe por esse primeiro exemplo que a meditação trabalha mais teoricamente, através do raciocínio e com as chamadas “potências” sobre um determinado Mistério, como no caso acima, ou sobre um relato bíblico sem muita cenografia, ou mesmo sobre um assunto temático, que suscita resoluções lógicas. Há autores que até identificam esta maneira de orar com a “oração mental” (da mente).

Eu não posso afirmar como o fazem alguns, que a meditação seja mais fácil e comum de se orar em Retiros e até mesmo nas orações diárias. Neste sentido, é bom estarmos atentos de que nem tudo que é hoje em dia oferecido como posturas para mentalizações e relaxamentos, já sejam diretamente uma maneira cristã de meditar!

Voltando à meditação nos EE, é importante que se diga que ela não é apenas teórica, nem mesmo uma espécie de “nirvana budista” ou momento de distensão psicológica. O que a distingue de todas essas modalidades é que aquilo que nela se pensa e se reflete, conduz a uma relação de intimidade com Deus ou com os seus mediadores, como Nossa Senhora, São Paulo ou outros Santos …

Santo Inácio apresenta o seu método meditativo como se fora uma leitura ou reflexão orante que conduz o exercitante à intimidade, um pouco parecido com a “lectio divina“, muito utilizada por várias Congregações religiosas. Contudo, a meu ver a inaciana parece abrir a mente para o louvor, a ação de graças e a penitência em pequenos diálogos que irão desembocar num único maior ao final do tempo dela, chamado por Inácio de “colóquio” (EE,54).

  • A contemplação

Antes de tudo, apresento a ideia mais ou menos generalizada entre fiéis que se dão a vários tipos de oração pela Palavra, nos diversos tipos de Retiros. Ao apresentarem dificuldades com respeito a este modo de oração, especialmente já até acostumados com os EE, o que eu constato na experiência dessas pessoas? Boa parte delas ao partilhar seus momentos de oração afirmam que não puderam ou não chegaram à contemplação.

Às vezes até chegam a dizer que não são feitas para este tipo de oração. Eu sempre lhes disse que Deus não nega a nenhuma pessoa de fé e de boa vontade, esta veia contemplativa, pois a todos Ele dá a Graça da oração que supera todas as resistências e fragilidades humanas. É claro que há necessidade de uma grande abertura (desejo e vontade) por algo mais na nossa relação de intimidade com o Senhor. É necessário, isso sim, pedir insistentemente esta Graça, como sugere Santo Inácio, como já tivemos ocasião de falar.

Antes mesmo de apresentar os principais aspectos dessa oração, é bom que se saiba que a proposta inaciana é uma adaptação do que já existia na Igreja Católica desde os primeiros séculos com os Padres do Deserto. Santo Inácio, como sempre, a partir de suas experiências espirituais muito pessoais, retoca o que conhecera teoricamente sobre a contemplação desses monges. As indicações que conhecera no tempo de sua conversão em Loyola pelos livros e em Manresa pela prática do que lera. Será pois nessa prática concreta, das muitas horas de orações diárias (sete horas), que chegará ao esquema próprio, que apresentará mais tarde no livro dos EE, para o proveito espiritual das pessoas que o buscavam. Este aspecto que fiz questão de lembrar, referindo-me à contemplação, aplica-se praticamente a todas as dinâmicas contidas nos EE.

Passemos então agora aos aspectos mais próprios da verdadeira contemplação inaciana. Apresento seis que considero retratarem bem o perfil dela. Será descrito a dinâmica e de uma forma bem breve. A Contemplação inaciana então:

  1. Aproxima, ou seja, favorece a aproximação mais ativa de quem ora, do Mistério que deve ser contemplado. Ele fica o tempo todo ligado ao relato bíblico, em especial das pessoas e situações de vida, com as quais será mais fácil se identificar. Por exemplo, eu serei um dos pastores que adoram o Menino na gruta de Belém, ou um dos discípulos que ajuda na distribuição do pão à multidão, etc …
  2. Favorece o conhecimento interior, mais do que o exterior, especialmente das pessoas que compõem o relato. Neste particular, quando se trata de relatos do Novo Testamento nos quais Jesus é sempre a figura central, a Graça desse conhecimento se aprofunda, atingindo o coração de cada exercitante. Ele sente dentro de si, algumas características desconhecidas da pessoa de Jesus.
  3. Revela um pouco mais o mistério que porventura ainda se ocultava atrás da exterioridade das imagens ou das primeiras impressões que se tivera. Isso ocasiona o crescimento e a confirmação da fé na verdade da Palavra divina. Por exemplo: “Eis o meu Filho muito amado no qual coloco toda a minha afeição” (Lc 3,22b) na cena do Batismo de Jesus.
  4. Serve-se e utiliza dos cinco sentidos – visão, audição, olfato, gosto e tato – não só os exteriores mas principalmente os interiores. A conjugação e integração desses sentidos fazem com que se enxergue, se escute, se aprecie o odor e o sabor e se toque com um jeito novo. Isso dará mais satisfação pessoal, pela Paz que é sentida.
  5. É mais afetiva e mais cheia de sentimentos e de “moções” internas (movimentos que se sente no interior, especialmente em EE). São as movimentações dos afetos, sejam eles positivos, ou o que pareça serem negativos. Inácio liga tais sentimentos internos aos chamados “espíritos” que parecem circular no e pelo interior daquele que contempla. É importante entender que aqui não se fala de sentimentalismos à flor da pele”, tipo “ah ! eu não senti nenhum estremecimento, pensando na contemplação da Anunciação”, por exemplo.
  6. Suscita desejos maiores de seguimento ou discipulado que muitas vezes é distintamente apresentado nos textos evangélicos por Jesus encarnado. Santo Inácio de Loyola, quando apresenta os seus pontos para cada contemplação com os sentidos, sugere que o exercitante se pergunte sobre que “proveito espiritual” tirou do que contemplou ao olhar, ao escutar ao gostar ao tocar ao sentir odor… Ele supõe que cada palavra, ação, gesto … está carregado de possíveis apelos pessoais. É por isso que se afirma que esta nossa contemplação inaciana é muito “pé no chão”, apelando a quem a faz a ser um pouco mais parecido com Jesus, no concreto de sua vida: mais compassivo, manso, humilde …

     6. O  horizonte  da  experiência

Faz parte também desta metodologia, o que eu estou chamando de horizonte da experiência. A expressão eu a aplico a algo que se projeta ao que inicia os EE, com um objetivo bem claro e definido. Ele se põe a caminho, tendo este horizonte como uma luz que vai iluminando cada uma das etapas a serem vencidas, até atingir a meta da chegada. Faz lembrar o que o apóstolo disse para a comunidade de Filipos: Fl 3,12-16.

Na definição mais concisa dos EE, lê-se o seguinte: “Exercícios Espirituais para vencer a si mesmo e ordenar a vida, sem determinar-se por afeição alguma desordenada” (EE,21). Não é o caso de eu interpretar o que Inácio propõe a todas as pessoas que se dispuseram entrar nos EE. Penso apenas resumir essa oferta motivadora, com as poucas palavras que em geral fiéis de nossas paróquias e que se dão à oração pessoal, quando falam em partilhas de buscas e encontros constantes com a Vontade Divina: Para fazer a vontade de Deus neste momento de minha vida…”  Não deixa de ser um colocar-se logo em prontidão diária, sob a luz desse horizonte.

  1. A  perseverança  na  meta  alcançada

Inicio mais esta indicação, trazendo à lembrança dos que me leem, uma ideia generalizada de que os EE bem realizados deixam uma marca indelével, para toda a vida (sem comparação com o costume atual das tatuagens, fenômeno relativamente recente e talvez até passageiro). A questão da “marca” era o modo de pensar daquele que por primeiro deu seus EE às pessoas que desejavam progredir na vida espiritual. Este Inácio ainda estudante de Teologia chegou a afirmar que seus EE feitos com seriedade e atingindo o objetivo deles, não precisariam ser repetidos. Esse era o modo de pensar de alguém que vivera a intensidade de uma conversão radical de vida. Talvez ainda em vida, alguns de seus primeiros companheiros jesuítas puderam viver essa mesma intensidade, como os Santos Francisco Xavier e Pedro Fabro. Contudo, pouco antes da morte do fundador da Ordem dos Jesuítas, outro modo de pensar já será a habitual e aparecerá como norma nas Constituições da Companhia de Jesus. Sabe-se que todo jesuíta hoje faz duas vezes os EE completos e anualmente os EE de oito dias.

Penso que a força daquela linguagem inaciana permanece em todas as acomodações dos EE, se a aplicarmos aos frutos que devem permanecer. Para as pessoas que fazem os EE completos será o que no chamado “Pequeno Projeto Pessoal de Vida” (PPV) definiu como um modo evangélico de viver. Para as pessoas que os repetem anualmente, o essencial do PPV deverá ser sempre o mesmo, mudando apenas as mediações, que são relacionadas a situações novas de vida.

Concluindo este item, faço um apelo à perseverança, ou, se quisermos, à fidelidade naqueles pontos concretos que foram encontrados na Palavra de Deus e registrados em caderno próprio, especialmente para os EE anuais, como apelos divinos, numa constante conversão de vida. Poderão ser sempre recordados no que Inácio chama de “Exame Geral” (EE,43) ou como eu prefiro chamar, na “Oração afetiva sobre o dia que passou”, adaptando-se os “cinco pontos”  inacianos. Se perseverarmos nessa oração que deveria ser uma das últimas atividades do dia, não nos separaremos jamais da meta alcançada durante os EE anuais. Isso também nos ajudará a ir vivendo com mais esperança o que a vida real for nos oferecendo.

  1. A unidade entre exercícios, garantia de eficácia

 Deixei por último este aspecto de unidade, porque julgo bastante importante trazer esta particularidade como garantia do bom resultado de todos os EE.

Falar em unidade nos EE é dizer que cada um dos ee, ou seja, cada momento de oração, não está só e desvinculado do objetivo de cada semana ou etapa e o todo dos mesmos EE. A unidade entre os ee faz o conjunto da semana, naquilo que era o objetivo a ser alcançado. Contudo, não são quatro semanas separadas, mas, como se entende, procura-se ligar as semanas entre si. No rigor do que Inácio deixou para quem dá os EE, caso o exercitante não tenha chegado ao que é o objetivo da semana, por exemplo: chegar a uma experiência pessoal de ser pecador (não tanto de ter pecados) ao final da primeira semana, não deverá passar para a seguinte – EE 18, ao final dessa “Anotação”.

É nesse buscar, encontrar e anotar o que vai se passando no interior da pessoa, dentro do ritmo dos dias e semanas, todas bem integradas, que o Espírito Santo vai agindo. Atentos a esse aspecto, os exercitantes, ajudados também pelos Acompanhantes, vão estar discernindo o caminho que vai sendo trilhado, em vista de conhecer qual é a Vontade Divina sobre si mesmos.

Pode-se então afirmar que, ao final dos EE, essa maior certeza tomou posse do exercitante, pela Graça de Deus. Ela se serviu de um método bem estruturado em momentos, dias e semanas ou etapas, em sequência lógica (não aleatória). Por isso é que as pessoas que fizeram os EE e se sentiram chamadas a este ministério espiritual, o realizam prazerosamente. Uma vez mais seguras e confirmadas por Deus e em geral por Jesuítas especializados e com muita experiência de EE que as aceitam, sentem-se estes Acompanhantes sem temor e muito à vontade, neste método inaciano.

Os EE há séculos aprovados pela Hierarquia da Sé Romana, nos últimos tempos tomou novo impulso, com a maior participação de Leigos e Leigas católicos e até de alguns evangélicos, de alguma Congregação mais ecumênica. Ao mencionar essa participação, não posso deixar de trazer um aspecto das origens dos EE: estes foram compostos por Iñigo de Loyola ainda leigo e ainda sem os sonhos da vida clerical. Francisco Xavier ainda leigo, será um dos primeiros que farão os EE completos.

III. CONCLUSÃO 

Chego ao termo desta memória pessoal da prática dos EE, por demais gratificado. Sinto que as “moções” sentidas aqui e ali, foram inspiração do Espírito, tornada realidade, quando encontrei a ótima metodologia de trabalho: falar de metodologia dos EE, colocando-me ali, no que chamei “indicações”. Até me parece neste momento final que, escrevendo de  metodologia inaciana, fui modéstia à parte, bem inaciano.

Pela leitura da minha análise pessoal das oito indicações, penso que deu para perceber e sentir a grandiosidade e valor inestimável do método inaciano nos EE para a Espiritualidade da Igreja Universal, hoje muito endereçado também a leigos e leigas.

Não pretendo no entanto afirmar que na exposição das oito indicações estão todas as qualidades ou propriedades, para uma abordagem mais científica. Aliás, desde o princípio deste meu trabalho disse que eu fizera uma opção de escrever, a partir das minhas experiência pessoais neste ministério dos EE. Alguns aspectos importantes, como o do Discernimento espiritual, enquanto material que expressa a liberdade interior do que se exercita, não foram e não puderam ser contemplados. Como este, também outros aspectos completariam muito bem a totalidade da visão do assunto tratado. Contudo, este aspecto e talvez algum outro, não foram simplesmente esquecidos. Este do Discernimento em todo o caso, exigiria um maior número de páginas por causa da sua complexidade Ao mesmo tempo, justifico-me ao dizer que há muito estudo teórico e já publicado nas revistas de Jesuítas do mundo inteiro.

O que importa ao final deste singelo trabalho retrospectivo sobre os EE, é ter chegado a uma certeza inequívoca de fé. Não deixa de ser uma verdade ligada a uma profunda percepção, de que a espiritualidade que tenho vivido é intensamente vivida também por não Jesuítas.

Sim, todos nós, Jesuítas e Leigos unidos nesta causa do MAGIS, desejando realizar o que é para mim hoje, a chave de uma leitura espiritual mais engajada, esta afirmação lúcida de Santo Inácio de Loyola : ” […] Cada qual esteja convencido de que tanto mais vai progredir em todas as coisas espirituais, quanto mais se libertar de seu amor próprio, vontade e interesse”. São palavras precisas e que encerram todo o seu pequeno tratado sobre a “Eleição”, em EE,89.

É a minha e certamente a sua resposta também mais comprometida ao convite que Jesus Cristo e que sempre se renova, de estarmos em sua companhia – Mc 3,14.

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Finis coronat opus “

Pe. Paulo Lisbôa, S.J.

 

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